Contos · Conto
A vida é uma caixinha de surpresas.
Por Dino Menasche
Escrito em 17 de outubro de 2026

São onze horas. Richard e Ricardo, deitados em suas enxergas, meditavam sobre suas vidas.
Com uma pequena diferença.
Richard estava em Austin, Texas, USA, enquanto Ricardo em Ubud, ilha de Bali, Indonésia.
Fora a semelhança de nomes, eles não tinham quase nada em comum.
Como se verá a seguir.
Richard nascera pobre, vivia pobre e continuava pobre.
Por pouco tempo, esperava.
Sua vida dera, entretanto, uma grande cambalhota.
Tudo começara no início do verão.
Fazia um calor infernal em sua cidade natal.
Para complicar a guerra, acabara de ser injustamente despedido.
Tudo por causa de uma garota, que inventara ter sido por ele assediada — mentira da filha da puta — e, como, na verdade, dava para o patrão, acabou levando a melhor.
Enquanto caminhava pela Guadalupe Street, pensava com seus botões na merda em que se encontrava.
Aluguel atrasado, geladeira vazia, a persiana acabara de quebrar e, para completar, arrebentara o salto do sapato.
Manquejando como pôde, amaldiçoava seu infortúnio quando, ao dobrar a esquina, deparou-se com fogo saído da janela de um apartamento no último andar de um prédio estiloso.
Movido por estranha compulsão, correu para o local, subiu pelas escadas, jogou o corpo, estourando a porta.
Lá dentro, a fumaça já invadira a sala, dificultando a respiração e a visão.
Uma mulher, abraçada com seu bebê, jazia desmaiada no chão.
Não pensou duas vezes.
Como pôde, arrastou-as para fora e, com grande esforço, com a dupla no colo, desceu pelas escadas, salvando suas vidas.
Nestas alturas, labaredas já consumiam o prédio.
Bombeiros, ambulância e carros de polícia chegaram minutos após, seguidos pelos repórteres e a televisão.
Como sempre, juntou-se a eles uma multidão, inclusive testemunhas do feito de Richard.
Aclamado, entrevistado, paparicado, do dia para a noite, tornou-se celebridade nacional.
Oportunidade única para o prefeito, tentando a reeleição, pegar uma carona e anunciar aos futuros eleitores a outorga de uma condecoração ao novo herói.
Tudo isto passava na cabeça do rapaz, enquanto, ao mesmo tempo, refletia sobre a ironia das coisas.
A cerimônia na prefeitura estava marcada para dali a duas horas e ele, o homenageado, não tinha sequer um terno para vestir.
No outro lado do mundo, o outro Ricardo também refletia sobre sua vida.
Nascera rico, fora rico, continuava rico.
Sua vida também dera uma grande cambalhota.
Por conta de uma asneira que fizera.
Metera-se com uma mulher, linda, gostosa, maravilhosa. Só tinha um defeito.
Era amante de Leleco, o chefe da droga no Morro do Catumbi.
Alguém descobriu, os alcaguetou e foram levados debaixo de escopetas para a presença da chefia.
O cara dispensou a escolta e, diante dos dois, proferiu a sentença.
Declarou-se ainda apaixonado pela garota e estava disposto a perdoá-la, desde que jurasse perante os orixás que lhe seria fiel enquanto vivesse.
Estava disposto a casar-se, de papel passado, e constituir família, um monte de filhos e os cambau.
Depois virou-se para o transgressor e, com um sorriso sarcástico, decretou:
“E para você, meu patrão, ofereço uma escolha. Uma morte por tiro ou enforcamento!”
Ricardo empalideceu e pediu socorro à ex-namorada, que saiu em sua defesa.
Tanto implorou, que amoleceu o coração do facínora.
Pediu tempo para pensar.
Dias depois, convocaram o rapaz para ouvir o veredicto.
Para seu alívio e surpresa, fora absolvido pelo cornudo, desde que seguisse, fielmente, as instruções recebidas.
Recebeu um envelope em seu nome, com duas passagens, ida e volta, Rio de Janeiro/Bali/Rio de Janeiro.
E uma prancha de surf, para ser entregue num endereço em Jacarta.
Tirou da cabeça qualquer desconfiança e mandou brasa.
Voucher para hotel cinco estrelas e dois mil dólares em espécie.
Já no avião, o brasileiro, agradecendo a Deus por sua sorte, estudava num panfleto o que tinha de bom para fazer na ilha.
Os funcionários aduaneiros o liberaram rapidamente.
Quando estava embarcando na limousine, dois policiais fardados o convocaram para retornar ao aeroporto.
Falando um excelente inglês, foi interrogado por um oficial e bombardeado por uma saraivada de perguntas.
Logo percebeu uma mudança radical no tratamento.
Uma certa rispidez que culminou com a abrupta retirada da prancha para exame especial.
Uma hora depois, ingressaram na sala dois senhores em trajes civis, empurrando um carrinho com o surfboard desfeito em pedaços.
Pararam em frente do passageiro e solenemente lhe deram voz de prisão, enquanto algemavam seus pulsos.
Foi levado aos empurrões para a delegacia aduaneira do aeroporto.
E lá, forçado “gentilmente” a assinar um termo de ciência da acusação que lhe faziam.
Contrabando de droga, nomeadamente, heroína!
Imediata prisão preventiva sem direito à caução!
Sem saber como, o assunto vazou, saindo uma notícia no Jacarta Post, alertando o consulado brasileiro e a Reuters, que imediatamente a repercutiu para o New York Times.
A nota dizia essencialmente e grosso modo o seguinte:
“Na Indonésia heroína não tem vez.
Foi preso ontem no Aeroporto Soekarno-Hatta, Jacarta, o cidadão brasileiro Ricardo Domingues, tentando contrabandear expressiva quantidade de heroína.
De acordo com a lei do país, poderá estar sujeito à pena capital!”
Por incrível coincidência, ou decisão editorial, no mesmo dia, no mesmo jornal, na mesma página, foi publicada a seguinte notícia, à peu près.
🔥
“Governor’s Medal of Courage.
O Governador do Texas irá homenagear amanhã, em cerimônia no Texas State Capitol, Austin, o cidadão Richard Moorccroft, com a comenda por atos de bravura.
Estarão presentes os resgatados do incêndio.”
Estaria escrito nas estrelas?
Oporto, 17 de outubro de 2026.
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Texto enviado pela família, com revisão ortográfica e gramatical autorizada. Estilo e voz do autor preservados.
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