Contos · Ficção científica
Admirável novo mundo.
Por Dino Menasche
Escrito em outubro de 2026 · dia não informado

XP479-0045 YB acordou emocionado.
Deitado em seu tubo principal,rememorou o sonho que criara.
Tudo dera certo. Ou melhor,quase tudo.
Na próxima vez seria perfeito.
O despertador virtual interrompeu seu devaneio.
Resmungando,levantou-se e desligou,com um olhar,
o som agressivo.
Concentrou-se para saber em que dia estava. Um hábito trazido de muitos anos atrás.
Sempre discreto - o alarde não era desejado - confirmou a data.
da nova era de Saturno.
Impressionado com a velocidade em que o tempo avançara,discretamente,para não chamar atenção das patrulhas ideológicas,foi até a câmara de higienização para o ritual matinal.
Até esta data não conseguira adaptar-se ao novo sistema.
Preferia,sem sombra de dúvida,os jatos de água sulfurosa.
Enfim,estava cansado de remar contra a maré.
Desde a grande revolução,quando os Plutônicos conquistaram o poder no planeta Terra,para evitar o pior, a desintegração absoluta, ele fingiu aderir ao sistema.
Já era uma alma solitária.
Fora impiedosamente traído pelo sócio,um cara sem o menor escrúpulo,a quem ele ajudou desde o início da carreira e que retribuiu o favor o denunciando às autoridades do invasor.
Do dia para a noite,viu-se isolado,estigmatizado e,por sorte,sobreviveu.
Agora,no seu modesto refúgio só tinha um objetivo.
Vingança!
Tinha que,porém,manter o sangue frio.O mínimo erro seria fatal.
O cara tinha contatos poderosos.
Solertemente se infiltrara no governo,assumindo a direção do departamento de combate aos recalcitrantes.
Sem pudor nem piedade,ceifava vidas humanas e recebia,em contrapartida, montanhas de diamantes -a nova moeda que circulava no planeta.
Em pouco tempo ficou rico,milionário e construiu para seu gáudio,um verdadeiro castelo à moda antiga.
Dentro de suas muralhas ele era o rei,todo-poderoso.
Protegido por janízaros,infiltrava-se no poder dominante,como
um lacaio subserviente.
Denunciava opositores,confiscava seus bens, e mantinha um harém em suas muralhas.
Não pensem porém, que renegara ou repudiara as benesses tecnocráticas trazidas pelos usurpadores. O resultado foi uma mistura do melhor dos dois mundos.
Ou seja; um inimigo respeitável Como a peleja entre David e Golias,
onde um mínimo erro seria fatal!
Mantinha este mantra,permanentemente,em sua cabeça.
Passou a ser sua raison d’être.Cuidava do
corpo como o de um gladiador.
Investia a totalidade de seus montouparcos recursos numa dieta espartana e o principal,na tecnologia mais avançada.
Havia acumulado,durante seu tempo de executivo,uma quantidade de artefatos que lhe permitiram construir uma impressora,tridimensional.
Durante meses, ficou incrementando-a,criando finalmente uma máquina única no mundo,fundamental,para seu objetivo.
Destruir o rival utilizando suas próprias armas.
Para tal construiu pacientemente uma série de humanoides,buscando reproduzir
fielmente o corpo e o visual do traidor.
Não era tarefa fácil mas não impossível.
Nos anos de ocupação,conhecimentos milenares,foram introduzidos no planeta,dos mais diversos tipos.
Com a arrogância típica dos
Conquistadores ninguém se preocupava com pequenos detalhes. Para eles,peças avulsas sem grande importância.
Mas para nosso amigo,que na infância adorava montar puzzles, era sopa no mel.
Utilizando fotos,filmes,e o auxílio da Inteligência Artificial aprimorada ad nauseam,finalmente concluiu sua obra.
A voz,os movimentos, até os tiques nervosos,foram reproduzidos à perfeição.
Orgulhoso contemplou seu novo parceiro e,num impulso de humor,convidou -o para jantar.
Aproveitou a oportunidade para aparar as últimas arestas,doutriná-lo e prepará-lo para sua missão!
Atacar o quartel-general dos alienígenas,e arcar com as consequências.
Durante semanas,cada passo,cada movimento, foi devidamente ensaiado.
Uma operação do tipo comando.
Numa fração de minuto,nosso alter ego,invadiria o local,jogaria uma granada e sumiria na noite.
O importante era ser fotografado pelas câmeras instaladas no local.
Pelo controle remoto, o sósia poderia,ainda,enfrentar eventual
contratempo.
O plano original era a fuga na maior velocidade,um mergulho no lago mais próximo e a autodestruição do autômato!
O vingador esperou,pacientemente,um céu sem lua e sem estrelas.
No escuro absoluto deu a partida.
O esquema funcionou como um relógio suíço.
Súbito,algo inesperado aconteceu.
O écran apagou! Nervoso,acionou as providências habituais.
Nada aconteceu. Entrou em pânico. Suado andava para um lado e para o outro,temendo o pior.
O robô fora descoberto. Nestas alturas,estava em mãos inimigas,sendo interrogado e entregando o mentor.
Pensou em fugir. A ira dos invasores seria terrível.
Não temia a morte, desde que fosse suave.
O que não podia suportar era a bateria de torturas a que seria submetido.
Todos os terráqueos as conheciam,nos mínimos detalhes, devido à propaganda dos novos senhores.
Ouviu um ruído na porta.
Preparou-se para o pior.
Uma voz conhecida vem do corredor e,ao mesmo tempo, alguém entra na sala.
O seu robô! Vem rebolando ao som de um mambo do Pérez Prado. Uma relíquia musical.
O dono da casa,encostado na parede, repetia sem cessar;
“ Não acredito!Não acredito.!”
O bailarino,não deu a menor pelota.
Pelo contrário. Achou que seu mestre cantava um refrão.
Entrou na balada. Tentou tirá-lo para dançar. Chacoalhando maracas virtuais, mudou a letra do mambo pela nova;
“ Não acredito. Não acredito.”
De repente ele para como se
atingido por um raio.
Lentamente,vai desabando ao som das maracas. Seus movimentos são mais lentos dando ideia de que a corda estava acabando.
Então, num derradeiro esforço, tenta levantar-se,abraçando
o perplexo espectador.
Tarde demais. Seus braços caem do corpo,a cabeça rola para debaixo do sofá,e em um segundo,o que sobra se transforma numa montanha de sucata!
Uma voz fraca,ainda conseguiu balbuciar;Não acredito…”, enquanto seu autor escorria pela parede e caía duro sobre a sucata.
Um mês depois, o serviço municipal de limpeza urbana,diante do mau cheiro,arrombou a porta e invadiu o imóvel.
Através da máscara informou à chefia;
“ Tudo ok por aqui! Apenas um monte de lixo!!!”
Oporto,outubro 2026.
🦖💐🪷🌺🌷🌹☘️🧿🙏
🤷♂️
Texto enviado pela família, com revisão ortográfica e gramatical autorizada. Estilo e voz do autor preservados.
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