Dino MenascheCONTOS & MEMÓRIAS

Crônicas · Crônica

Apenas quarenta minutinhos.

Por Dino Menasche
Escrito em 15 de outubro de 2026

Mesa de café da manhã com chá, pão, relógio e celular em aquarela.
Ilustração artística inspirada no texto de Dino Menasche.
Para ler com calma

Bom dia querido leitor?

Passou bem a noite?

Eu,por minha vez,acabo de acordar.

Estranho. Não sinto a menor dor.

Muito pelo contrário.

Uma agradável sensação de bem-estar,há muito esquecida.

Foram duas bolachas nas faces,para confirmar se um bicicleta.

Estou vivo.Por enquanto!

Lembrei-me de uma frase de um amigo que já foi para o beleléu.

Só os vivos morrem!

Puta filosofia.

O despertador toca alucinado,sem dar a menor pelota a este momento só meu.

Minha vontade foi jogá-lo pela janela. Aparelho mal-educado e inconveniente.

Logo mudo de ideia,lembrando de quanto custou.

Então,que jeito;

Caio de cabeça na real.

Não basta estar vivo. Tenho que parecer vivo! Agir como tal.

Ou seja, levantar -me da cama,escovar os dentes - banho nem pensar pois faz um frio desgraçado e não paguei a conta do gás.

Conformado com esta situação deprimente,causada pela diferença entre o quanto recebo do INSS e quanto gasto por mês

⁃ maldita inflação e asqueroso governo -

sou forçado a submeter-me à condição de classe média para onde fui remetido, sem dó nem piedade, por um tal de IBGE.

Meu café da manhã é um papel carbono do dia anterior.

Sempre a mesma coisa.

Pão com margarina - a manteiga virou peça de coleção - uma chávena de tília,como fazia minha mãe e.. nada mais.

São nove horas da manhã e tenho diante de mim o dia inteiro.

Não compro mais o jornal,há muito tempo.

Ficou caro,caríssimo e só imprime merda.

Passou,com armas e bagagem,para o cordão dos puxa-sacos.

Lembro-me,muito bem, de um passado recente,onde este pasquim podia ser lido sem causar engulhos.

Dava informações atualizadas sobre o país e o exterior.

Seus articulistas faziam o impossível para comentar os fatos com honestidade e isenção.

E quanto às reportagens,traziam os fatos,mais ou menos,como aconteceram.

Tudo isso mudou,sem a menor sutileza.

Um estupro à mão armada!

Cabeças rolaram,excelentes colaboradores foram jogados na lama,e um bando de garotos,pretensiosos e incompetentes, assumiram seus postos.

Tive que partir para novas plagas.

Com muito esforço,adquiri uma engenhoca, - um pequeno retângulo que cabe na palma da mão -e que substituiu o jornal com vantagem e,de quebra, oferece uma série de funções a seu dono.

Todo mundo tem o seu, enquanto não os perdem ou são confiscados pelos bandidos.

No meu caso não o tiro de casa.

Não tenho condições financeiras,na ocorrência de uma tragédia,para substituí-lo.

Isto posto,resta-me um longo dia para passar o tempo.

Fascinante,como mudam as coisas.

Lembro-me ainda, de reclamar da quantidade de afazeres que tinha pela frente.

Além da repartição,consegui outro emprego paralelo.agora

Pulava de um galho para outro como um mico-leão amestrado.

Desesperado,chegava sempre atrasado. E levava homéricas broncas nos dois lugares.

Esta estressante situação,foi solertemente minando minha saúde,complicando meu caso com a Marilda,que por sua vez era casada com o Manel da padaria,

que acabou desconfiando de sua cornitude!

Resultado da ópera.

Tudo virou de ponta a cabeça .

Perdi os empregos por justa causa,nunca mais comi a namorada e,a duras penas consegui aposentar -me por doença,depois de uma incrível encenação.

Aqui estou,agora, procurando o que fazer,jogando paciência e tentando manter-me lúcido.

Confesso que tenho terror da visita prematura do Dr. Alzheimer.

Acompanhei de perto,de A a Z ,a debacle de um grande amigo,que inadvertidamente permitiu a entrada do filho da puta no aconchego do seu lar!

Foi muito duro ver a velocidade e o grau de deterioração da pessoa.

No final,achei que só a música

⁃ ele sempre foi amante dos

principais compositores - lhe

trouxe um pouco de paz.

Eu também adoro a música.

Não tenho os recursos do falecido,mas vou me virando como posso,com o auxílio do celular e o da torre da Bose,que ainda estou pagando.

A melodia enjoativa do telemóvel me informa que alguém pretende falar comigo.

Por princípio não atendo.

Ou é um golpe ou algum vendedor desesperado tentando impingir -me alguma coisa que não necessito.

Ou,na melhor das hipóteses,o chato de um ex-amigo para pedir dinheiro emprestado.

Acho que estou ficando um velho ranheta, mas a terceira idade deve servir para alguma coisa.

Jamais cair na mesma esparrela!

Sem perceber vai se aproximando a hora do almoço.

Escondi de mim mesmo,umas fatias de pata negra.

Valem mais do que ouro em pó.

Julgo que as mereci uma

vez na vida. Outra no velório.

Não achei a menor graça na piada infeliz, e concentrei minha atenção num bizarro fenômeno.

Não conseguia lembrar-me do

que fizera ontem,entre as onze e as onze quarenta da noite.

Nem onde estivera.

Normalmente,deveria estar em casa.

Aliás,não saio mais nesta hora.

Nada tenho o que fazer na rua.

Em geral durmo cedo.

Hoje,por acaso,dei por falta duma echarpe que ganhei da falecida enquanto morávamos juntos.

Não tinha grande valor,a não ser

a lembrança do momento em que,finalmente,consegui me separar.

Levou -me tudo a sacripanta.

Tudo,do pouco que conseguira amealhar.

Para falar a verdade, consegui salvar da sanha da megera,o

binóculo herdado do meu finado pai,reminiscência da segunda guerra mundial.

O mistério dos quarenta minutos insistia em corroer-me as entranhas.

Irritado,mandei tudo às favas e voltei à partida de xadrez que jogava com as brancas.

A solidão virara minha companheira.

Porém,tudo tem um limite.

Vez por outra,sentia falta de um ouvido amigo para desabafar e dividir os problemas.

Neste caso específico, onde passara os minutos olvidados.

Dei xeque-mate nas pretas,e para

comemorar minha vitória, uma bicada na cachaça que comprei no botequim.

Onde caraças perdi a porra do cachecol?

O sino da capela em frente toca seis vezes anunciando a hora.

Ligo a televisão para assistir ao noticiário.

Como sempre,a bosta do aparelho está com a imagem fora de foco.

Não posso reclamar.

Valha-me Deus.

No mês que vem completará a maioridade!

Caminho até a antena e a mudo várias vezes de lugar,até melhorar ligeiramente a qualidade no écran. Praguejei várias vezes obliterando a voz do narrador.

Estou ficando surdo. Cego e surdo.

Que beleza!

Pera aí!

Capengando,fui até a decrépita cristaleira em busca dos óculos,

ainda a tempo de ver a figura de um velho casarão,que julguei reconhecer,ser trocada pela do repórter,empunhando e falando qualquer coisa no microfone.

Então - puta merda - a imagem congelou!

Suspirei resignado. Não vale a pena. Vai destravar,não é?

Te conheço.

Como se estivesse ouvindo e concordando,a sacana da televisão voltou a funcionar corretamente.

Uma fotografia de uma menina,

⁃ parecia ter uns dez anos -

apareceu na tela.

Não deu para saber quem era,pois para variar o som pifou.

Vou jogar esta bosta no lixo,ameacei.

E saí da sala apressado para ir ao banheiro.

Maledeta próstata!

Já aliviado,passei batido pela desgraçada e,num golpe de mestre, dei uma meia trava e desliguei o fio da tomada.

Por esta você não esperava,espertinha!

Fui então fazer outra coisa que sabia não me decepcionar.

Recomeçar a leitura de Dom Casmurro pela enésima vez.

Parece mentira. Nesta mesma hora,o vizinho,sem nada pra fazer ,liga a sua estereofônica televisão e cagando para a lei do silêncio, entrou em minha casa com o noticiário que estava há pouco acompanhando,obrigando-me a mandar Bentinho e Capitu às favas.

Fui obrigado a reconhecer a qualidade do som invasor e consegui entender o motivo da indignação do narrador.

A tal menina da fotografia,era a mesma que fora sequestrada,estuprada e morta na noite anterior, por um pedófilo tarado.

Aí a ficha caiu. Aquele casarão ficava há três quadras daqui e fora por lá que encontraram o corpo da vítima.

Como não ia com a cara do indivíduo do lado, fui obrigado a

perdoar a vetusta televisão, religá-la e,mal ou bem,

seguir o noticiário.

Era o assunto do momento. Não se falava noutra coisa.A virulência do crime estimulava o sadismo da imprensa investigativa.

A perícia técnica já iniciara sua função,tentando manter em sigilo suas descobertas para não alertar o assassino.

Dia após dia,as televisões entrevistavam especialistas procurando informar -se,em busca de pistas e do grande furo.

Foi então que alguém da polícia vazou para um ex-delegado,titular de um programa sensacionalista,uma informação exclusiva.

Perto do local do crime fora encontrado um cachecol masculino.

Seria do criminoso?

O sangue gelou-me nas veias.

Muita coincidência.

O lapso de memória e a écharpe misteriosa.

Entrei em pânico. Não sabia o que fazer.

Meus amigos,os poucos que tinha, já partiram desta para melhor.

De uma coisa tinha certeza.

Se fosse culpado,não suportaria passar o tempo que me restava , atrás das grades.

Mas era inocente. Nunca fizera mal nem a uma mosca.

Desesperado,busquei no Google ,informações sobre dupla personalidade,sonambulismo,magia negra,hipnose, esquizofrenia

que resultaram em só aumentar minha angústia.

Comecei a definhar. Via federais em todos os cantos.

Tentei virar o jogo. Colaborar com as autoridades para descobrir o assassino.

Faltou-me coragem.

Até que um dia,arrumando um armário, encontrei numa gaveta,todo amarfanhado o bendito cachecol.

Um ponto a meu favor.

Até agora,enquanto escrevo estas linhas,não descobriram o assassino estuprador.

Mais um crime sem solução!

Quanto aos quarenta minutos, continuo sem saber o que se passou.

Se algum de vocês tiver alguma informação,uma pista,uma ideia ou até mesmo,uma dica sabem onde poderão encontrar-me.

Penhorado agradeço!

Oporto,15 de outubro de 2026.

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Texto enviado pela família, com revisão ortográfica e gramatical autorizada. Estilo e voz do autor preservados.

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