Dino MenascheCONTOS & MEMÓRIAS

Crônicas · Crônica política

Campanha.

Por Dino Menasche
Escrito em 18 de outubro de 2026

Aquarela de um comício imaginário, com palco e cortinas, alto-falantes, bandeiras vermelhas e amarelas e o Congresso ao fundo.
Ilustração artística inspirada no texto de Dino Menasche.
Para ler com calma

A palavra Campanha vem do latim, Campania, derivada de campus, que quer dizer campo.

Vem sendo utilizada desde priscas eras, com diversos significados, entre os quais:

Campanha militar, campanha política, publicitária, altruísta, esportiva, ideológica, filantrópica, imunológica e muitas mais à vontade do freguês.

Grandes vultos da humanidade, como Moisés, Gengis Kahn, Aníbal, Júlio César e, mais recentemente, Napoleão, Bismark, Von Moltke, Hindenburg, Patton, MacArthur, Zhukov e muitos mais, lideraram seus comandados em busca da glória eterna.

Nada, porém, se compara às campanhas eleitorais brasileiras.

Cada dia que passa, cada nova cruzada que vejo surgir, falo, berro, lamento comigo mesmo, com o slogan:

Não acredito!! Não acredito!!

Analisemos a questão passo a passo.

Para começar nossa pesquisa, os marqueteiros. Chapéu para eles.

Ganharam na loteria, nas barbas do povo, com um sistema imbatível, impossível de errar.

De cara cobram uma fortuna de honorários. De preferência, debaixo dos panos. Tributo é contra sua religião.

Depois dissecam o cliente, em busca de algo bom, puro, honesto no meio de um mar de podridão. Se não encontram, inventam ou pedem emprestado na Bíblia.

Plágio, direitos de autor, não existem em seus dicionários.

São os alquimistas do século vinte e um.

Transformam, num passe de mágica, merda em ouro em pó, de preferência depositado na Suíça.

Deveriam cobrar ingresso para ensinar a esta plebe ignara um pouco de seus artifícios.

São os campeões mundiais na arte da metamorfose.

Só perdem, no tapetão, para seus próprios clientes, como se verá a seguir.

Mas primeiro, pela ordem, jargão dos prostitutos de Brasília, falemos um pouco dos partidos.

São tantos, cada vez mais, que já não conseguem compor novas combinações de letras.

Eles mesmos, seus impolutos líderes, às vezes se confundem e são obrigados a recorrer aos especialistas na arte das palavras cruzadas.

Mas estes pequenos deslizes não os incomodam nem um pouco.

São ossos do ofício.

O importante é a rosa — desculpe, meu amigo Gilbert Bécaud —, o importante é o fundo partidário e o código para embolsar a comissão.

E, sobretudo, tomar uma vacina contra a burrice coletiva.

Problema que se estende, com louvor, para o reinado da pesquisa.

No fundo, no fundo, é uma questão de preço.

Quem der mais, neste secreto leilão, decide o nome, o percentual e o número de votos do candidato vencedor.

É um prognóstico que tem vida curta. Uma libélula no lago da esperança.

Mas nosso país é grande. Há lugar para todos, principalmente para aqueles que perderam a memória.

Os clientes favoritos do alemão, o professor, doutor Alzheimer.

Os membros desta confraria se dão muito bem entre si.

Redundância à parte, seu código de conduta é muito simples, sempre respeitando a verdade dos fatos.

Nunca se informa ao público idiotizado a idade, o sexo, condição econômica, local de residência, de trabalho, profissão, escolaridade e condição de saúde, física e mental, do entrevistado.

Sem falar no time para o qual torça, seu estado de espírito — se brigou com a mulher ou saiu feliz e aliviado do motel acompanhado pela vizinha da frente —, fatores fundamentais para a escolha do provável vencedor.

E finalmente chegamos aos mais importantes: os clientes, os Candidatos — ou Candidatas —, desculpem as feministas.

Um animal raro, difícil de encontrar em dias comuns — muitos hibernando em cavernas profundas, que o vulgo chama genericamente de congresso — e que prolifera por toda a nação.

Fora da época do cio, período pré-eleitoral, aposto com você que, se esbarrar num destes espécimes, não o reconhecerá.

No máximo, pensará que pode ser um trombadinha — no que não está totalmente errado — e ficará aliviado ao perceber que ainda conserva a carteira e o celular.

Agora, se este encontro ocorrer meses depois, em plena campanha, tudo será diferente.

Acompanhado por uma serenata imaginária, ele ou ela — aprendi a lição — te abraçará, beijará, se esfregará em você, dirá que te ama, que sempre te amou e que resolverá todos os teus problemas que — por milagre — conhece todos.

Te oferecerá panfletos — onde sua estampa é vinte anos mais moça, numa pose sensual — e, no ouvido, te dirá que conta com teu voto e o de tua família.

E, para tua surpresa, te corneará no próximo minuto, deslavadamente, com o sujeito da frente.

Mas isto é uma brincadeira de criança diante de uma coisa que se chama Comício!

Aí é que a porca torce o rabo.

Você tem que acordar cedo, vestir uma camisa amarela ou vermelha, dependendo da cor do teu amor. (Bonito, até rimou.)

No elevador, se der azar e encontrar o vizinho do sétimo, aquele mastodonte troglodita fantasiado com a camisa do inimigo, não perca a calma e, pelo amor de Deus, não seja grosseiro.

Cumprimenta-o gentilmente, como se fosse teu irmão e, à saída, sobretudo, não entre no mesmo ônibus com ele, pois seu comício não é o teu!

Chegue cedo para conseguir um bom lugar.

Recomendo que não aceite o sanduíche protocolar.

Com este calor, poderá estar estragado.

Cuidado com os alto-falantes.

Já ensurdeceram muitos correligionários.

Fique longe das bandeiras.

Num conflito podem virar armas de guerra.

Aplauda com os outros. Jamais fora da hora.

Aprenda os refrões do partido.

Cuidado para não confundi-los.

Se por acaso a canoa virar e chegar a polícia, corra para o outro lado. O gás lacrimogêneo faz mal aos pulmões.

E se, ao fim e ao cabo, continuar inteiro, não se esqueça de que à noite poderá ver na televisão seu candidato mentir descaradamente, o que nos leva aos últimos e principais personagens, cujos nomes e biografias, nessas alturas, já sabe de cor.

Os paladinos da esquerda e da direita, cagando para o Brasil, preparando-se para o debate.

Juntam-se todos para preparar os contendores.

Enquanto isso, a campanha não para.

Os comentaristas políticos, vestindo a roupa da neutralidade, se esbaldam torcendo os fatos, repetindo asneiras, para no fundo agradar seus patrões.

Vez por outra, um se estrepa.

Perde o controle e deixa transparecer sua aparência de bandido.

Alguns altos hierarcas são demitidos na calada da noite.

Mas la nave vá!

O veneno das víboras continua circulando. Estão todos já intoxicados, perderam a noção do ridículo, da decência, da lealdade e o povo que se dane.

Os baús da putaria são abertos todo dia.

Aparecem diálogos, encontros, acordos, pedidos, conclaves, bacanais, subornos, traições, buscas e apreensões e, vez por outra, uma prisão, em geral, de arraia-miúda.

Então o sistema entra em ação.

Dependendo do tamanho da presa, de seu patrimônio — de preferência escondido no exterior —, dos causídicos que possa contratar e dos amigos que fez nos bordéis da política, um habeas corpus é concedido, sem qualquer pudor, e o cara desaparece das manchetes por um tempo, até voltar nas próximas eleições.

Ou então ganha uma embaixada ou a presidência de um banco internacional.

Haja fígado para aguentar este festival, dia após dia, enquanto seus filhos são assassinados ou, ainda, induzidos ao crime, à droga, fugindo de balas perdidas e fornecendo matéria para os jornais vespertinos que se comprazem em comentar quanto gastou uma primeira-dama nas boutiques da moda.

E com medo de ser cancelado, até preso, por determinação da justiça suprema e soberana do teu país, financiada por você mesmo, contribuinte imbecil.

E o pior, o mais dramático, terrível, revoltante e desanimador prognóstico, de que continuará assim por saeculum sarculoram.

Triste herança para deixar a seus descendentes.

Mas eu, do alto de meus noventa anos, não aceito, me rebelo na esperança de dias melhores!

Hoje, por acaso, os dois postulantes à presidência deverão encontrar-se para debater e confrontar seus programas.

Será, novamente, um festival de baixarias. Não nos enganemos!

Cabe a nós, eleitores, separar o joio do trigo.

Lucidez e boa sorte.

Vote no menos pior.

O Brasil merece esta chance!!

O Porto, 18 de outubro de 2026.

🦖🇧🇷🙏

🦖🇧🇷😪🤞⚖️🙏

Texto enviado pela família, com revisão ortográfica e gramatical autorizada. Estilo e voz do autor preservados.

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