Memórias · Memórias da advocacia
Como tudo começou.
Por Dino Menasche
Escrito em 2 de outubro de 2026

Sou do tempo - já entreguei minha idade - em que os jovens da classe média tinham,apenas,três principais opções profissionais.
Engenharia,medicina e advocacia.
Correndo por fora,para os menos favorecidos intelectualmente,
arquitetura e economia.
Meus melhores amigos optaram pelas matérias científicas.
Eu,pelo contrário fiquei com a lei.
Sozinho,permaneci no mesmo colégio,até a formatura.
Naquele tempo - lá venho de novo com a mesma chorumela -todos os caminhos levavam para uma coisa chamada vestibular.
O terror dos estudantes.
Poucas vagas para muitos candidatos.
No meu caso,o grande obstáculo era o Latim!
Jamais havia encontrado com este bizarro animal.
Para dizer a verdade,confrontei-o
solamente una vez,y nada más,numa aula de português quando o professor resolveu tocar levemente no assunto,promovendo uma leitura fajuta.
Não tive outro remédio,se não,
bancado por meu pai,contratar um professor particular.
Seu apartamento,um quarto e sala,ficava na esquina da Princesa Isabel com a Av. Atlântica,num velho edifício.
Para não gastar mais dinheiro,de táxi nem pensar, fazia o trajeto,casa/professor,sempre a pé.
O cavalheiro,pelo que apurei,foi um quase diplomata reprovado nas últimas provas do Itamarati.
Magro,casmurro,snob, impaciente e ressentido com a vida,balançava o pé compulsivamente enquanto falava.
Foram dezenas de encontros,monótonos, soníferos onde,mestre e aluno estavam de saco cheio.
A duras penas,por repetição ou osmose, algo penetrou na minha cabeça,o bastante para passar nos vestibulares,um na Federal,outro na do Rio de Janeiro, just in case.
Em ambas fiquei entre os dez primeiros colocados.
Guardei na memória,apenas,um bizarro incidente.
Prova oral de História do Brasil.
Diante de mim na bancada,ao lado de outros catedráticos,diante de um sujeitinho arrogante, cujo nome era Homero qualquer coisa,comecei a dissertar sobre o tema que me foi sorteado.
Castro Alves,o poeta dos escravos.
Por acaso,conhecia a matéria perfeitamente.
A folhas tantas, cheguei no episódio em que, numa caçada,deu um tiro no pé que foi amputado.
Empolgado,narrei o incidente em voz alta, caprichando na encenação.
“ Com a perda do membro,o Vate
entrou em depressão e…”
Fui interrompido por uma intensa,agressiva,debochada gargalhada.
“ É claro. Com a perda do membro ele não podia mais trepar.”
Ainda resfolegando,soltando a franga,cutucou o colega do lado e apontando para mim,detonou.
“ Sabe o que ele disse? Que Castro Alves ao perder o membro ficou muito deprimido. Pudera…”
E parou,sufocado pelo próprio riso.
De uma hora para outra o holofote da plateia voltou -se para mim.
Vermelho como um pimentão,entrei em parafuso,puto da vida, desejando encher de porrada o velhote desaforado.
A prudência falou mais alto e puxei o freio de mão.
O que não resolveu meu problema.
A cabeça disparou. Acusei o golpe.
O poeta foi para o caralho.
Cismei que a malta me olhava,como o palhaço da tarde.
Estava a um centímetro de mandar tudo à merda,virar a mesa e de quebra, dar uma bolacha no sacana.
Meu anjo da guarda,mais uma vez,segurou meu ímpeto assassino.
Por um triz ia jogando pela janela meu ingresso na faculdade favorita.
Engoli o desaforo e vida que segue.
Embarquei,então, em duas canoas ao mesmo tempo.
Como aluno da universidade e como aspirante a estagiário em qualquer escritório de advocacia.
O único que apareceu foi o do Dr.
Tavares,que tinha prestado pequenos serviços à família.
A banca era pequena,poucos causídicos, com clientes de classe média.
Logo de cara, chamou minha atenção a forma peculiar com que meu chefe atuava.
Ele atendia seus constituintes de bate pronto,ou seja, na primeira consulta - por exemplo uma escritura- redigia a minuta diante do cliente.
Embora novato e inexperiente achava errado o sistema.
Por dois motivos. Primeiro,poderia cometer um equívoco movido pela pressa.
O segundo -como confirmei em minha longa vida como profissional de direito - transmite a ideia que o trabalho é uma sopa,muito fácil de fazer.
Então o interessado reclama do valor dos honorários.
Ganhava uma mixaria,meio salário mínimo.
Fui logo jogado no trabalho pedonal,indo todo o dia acompanhar o andamento de processos no Fórum.
Zero em matérias vinculadas ao direito,ele mesmo.
Um mero tocador de autos.
Rapidamente fui introduzido à burocracia da época,cheia de macetes,formalidades,estampilhas,papel selado, resquícios de uma época anacrônica.
Velhas máquinas de escrever,papel carbono para as segundas vias,terror do erro datilográfico - imaginem a calamidade de ter que apagar um deslise na página cinquenta e oito de um arrazoado,obrigatoriamente,
estampado em papel selado,que , by the way,custava uma nota.
Isto,sem contar, o decurso de prazo,uma chuva torrencial e a má vontade e a cupidez do escrevente.
Coisa de louco.
Tudo isto balançou minhas convicções.
Queria usar mais o bestunto e menos as pernocas.
No meio desta sarabanda um novo componente mudou radicalmente minha posição.
Fui convocado pelo meu novo chefe para uma conversa
tête-à- tête.
Começou por elogiar minha performance e deixou escapar
⁃ acho que propositadamente-
um segredo de polichinelo.
Era meu pai que financiava meu parco estipêndio.
Em seguida informou que doravante era o escritório a assumir o encargo que seria,desde logo,dobrado.
Foi um presente dos deuses para minha autoestima. O primeiro gol da minha carreira.
É claro que este entusiasmo durou muito pouco.
Enquanto na faculdade,descobria
o universo da profissão,também me aproximava de certos professores, criando um rapport de interesse recíproco.
Descobri que tinha um poderoso poder de sedução,que foi crescendo e se refinando até agora,quando escrevo para vocês.
Por outro lado,progredia rapidamente na área profissional.
Tinha dois empregos,paralelos e superpostos.
Além de,com grande esforço,alguns clientes de partido.
Foi um período duro,cansativo mas gratificante.
Começava às oito da manhã e,incluído o namoro,terminava lá pela meia-noite.
Em certos momentos,comparava minha atuação com a dos malabares do circo chinês,que no alto de varas de bambu, giravam pratos em sequência, mantendo todos no ar.
Não posso nem devo,continuar rememorando fatos e detalhes do que aconteceu a seguir.
Nem uma biblioteca seria suficiente!
Vários foram revelados em narrativas já contadas.
Mas preciso escolher um final.
Depois de muito meditar,num flash back rapidíssimo,foi eleita uma história que tem cara de final.
Em quatro de outubro,no dia do aniversário de Clovis Bevilaqua,o autor do anteprojeto do primeiro Código Civil Brasileiro,promulgado pelo Congresso Nacional,com algumas alterações em 1916,por escolha e homenagem de minha faculdade,foi decidido que a data da formatura de minha turma,seria a mesma do nascimento do jurisconsulto
Isto posto,ficou estabelecido o dia,local e hora para a realização da cerimônia, ou seja o Teatro Municipal.
A entrada seria pela porta lateral, a dos artistas.
Como um dos empregos ficava muito perto,fiquei trabalhando e quase perdi a hora.
Quando percebi,estava atrasado.
Saí correndo pela Av.Rio Branco e consegui chegar a tempo.
Em prol da verdade,como faltei todo semestre, e havia dois turnos,reconheci poucos colegas.
Uma garota ao me ver,esbaforido,
perguntou;
“ Você é o Baruh Menasche?”
Fiquei apavorado.Pensei que não havia pago a contribuição para a efeméride.
Vislumbrei a cara dos meus pais,da noiva e os futuros sogros,no balcão nobre,reservado para os parentes dos formandos,ao notarem que não estaria no palco.
“ Você ganhou o prêmio Tobias Barreto!”
Não fazia a menor ideia de quem era o indigitado e,muito menos,o porquê do galardão.
Não deu tempo para mais nada.
Última chamada, a classe perfilada, entra a música de
Edward Elder,”Pomp and Circumstance, o pano abre e a cerimônia inicia.
Os discursos de praxe, do orador da classe, do paraninfo e finalmente, o do Reitor,Ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal que assume a palavra e,inicia sua fala prestando uma homenagem aos alunos que mais se destacaram durante o quinquênio.
Junto com duas colegas,para mim desconhecidas, ouço, ainda descrente ,
meu nome reverberar pelo teatro,como ganhador do tal prêmio,Tobias Barreto.
Recebo o diploma e a Láurea ,sob os aplausos da plateia.
Agradeço,elevando o troféu,no estilo Copa de Mundo, sob as risadas de aprovação dos circunstantes.
Na saída,descubro as duas famílias,ainda na escadaria me aguardando.
Num gesto Shakespeariano,ofereço o Laurel para meu pai,como uma prova de amor filial.
Ele que estava meio agastado comigo,desmontou e com lágrimas escorrendo pelo rosto e,contrariando sua natureza,me abraçou amoroso.
Num desfile de emoções,fomos todos comemorar,num restaurante,meu grande momento.
Era o fim de uma etapa e o início de uma longa caminhada!
O Porto,2 de outubro de 2026.
🦖🤷♂️🌹☘️🎓⚖️👍🤞🇧🇷🙏
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Texto enviado pela família, com revisão ortográfica e gramatical autorizada. Estilo e voz do autor preservados.
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