Crônicas · Crônica
O eclipse!
Por Dino Menasche
Escrito em 13 de agosto de 2026

Hoje,12 de agosto,Portugal inteiro se preparava para assistir o Eclipse do século.
Há dias,a imprensa escrita,falada e televisiva dava grande importância à futura e muito aguardada efeméride.
Os astrônomos locais - os diplomados e os amadores - se compraziam em dar palpites de toda natureza.
A narrativa mais repetida explicava ao povo,do que se tratava o fenômeno, a última vez que fora visto na península ibérica e,o mais importante:
Era altamente perigoso para o ser humano olhar,sem a devida proteção, o astro protagonista,ou seja,o rei Sol!
As consequências desta ousadia variavam,dependendo do tempo de exposição,de um mero desconforto à cegueira total.
Mormente agora,que a camada de ozônio fora alterada pela incúria da humanidade!
A recomendação era jamais,em tempo algum,encarar o astro-rei sem a proteção de óculos especiais a serem produzidos,pela indústria farmacêutica,para o evento.
Tal terrorismo provocou,como esperado, uma demanda absurda pelo produto.
A tal ponto,pelo menos na cidade do Porto,onde moro,terem esgotado rapidamente os estoques do protetor solar.
O que criou uma espécie de cidadãos privilegiados que,por prestígio ou pecúnia,tiveram acesso aos artefatos.
No meu caso foi
a confluência dos dois.
Clientes habituais e de larga escala de uma farmácia,além de uma excelente relação com o pessoal, reservamos para o casal, minha mulher e eu,dois pares dos óculos especiais.
Que chegaram a nossas mãos com relativa antecedência!
Foi uma brutal decepção.
Vagabundos,de material inferior não me transmitiram a menor segurança.
A tal ponto que decidi não correr o risco. Repassei-os, para um casal amigo com a recomendação de que,na minha opinião seriam inócuos.
Na véspera,este era o assunto principal em todo o país.
Teorias de todo tipo inundaram a mídia.
Por outro lado,uma parte importante da população levou o ritual a sério.
Milhares de pessoas,portuguesas e de países vizinhos, se deslocaram para cá a fim de participar do fenômeno astral cerca o mais possível,do seu epicentro,a cidade de Bragança.
Resultado; hotéis,estalagens,campings lotados,supermercados e restaurantes faturando maravilhas.
Seguindo atentamente a orientação oficial,preparei -me para assistir,prudentemente,a conjunção dos astros.
Por precaução exagerada,fechei todas as persianas de minha casa - para evitar a mínima mirada para o eclipse - deixando apenas uma fresta,no meu quarto
para acompanhar o desenlace da situação, com risco zero.
E pelo celular acompanhava o horário informado ao público.
Na hora prevista,aguardando um escurecimento precoce, percebi apenas uma leve neblina ocupando minha rua.
Continuei esperando o negrume.
Ao mesmo tempo,nada dos
animais,cães,gatos e cavalos que estariam assustados ou,pelo menos,incomodados com a mudança sideral.
Nem um passarinho,sequer.
Todo o espetáculo durou apenas trinta minutos.
Logo a claridade voltou a dominar.
E,pelo seu lado o mundo retornou ao normal.
No noticiário noturno,informações desencontradas.Um dos entrevistados elogiava entusiasmado o que havia presenciado.
A única diferença era que falava da Finlândia. Um privilegiado.
A grande maioria,decepcionada,frustrada se queixava amargamente!
Haviam gasto uma fortuna,investido seu tempo para um pífio ou nenhum resultado.
Agradeci ao anjo da guarda não fazer parte deste grupo.
Não saí de casa,não gastei fortunas nem sequer, mudei o dia a dia.
Apenas uma pequena e prevista frustração.
Isto me fez lembrar de outro incidente,do qual participei involuntariamente.
Sempre no Porto,minha residência por opção.
Era noite de São João!
Para quem não sabe,uma data muito importante para os moradores da cidade.
Desde priscas eras os Tripeiros,como são chamados,festejavam o aniversário do Santo com uma farra monumental.
Lá atrás,num passado remoto, a população da Cidade Invicta,saía pelas ruas para comemorar a noite do padroeiro.
Pelas esquinas,pequenas grelhas a carvão assavam sardinhas.
Diz a lenda,ser proibido deixar de oferecer o pitéu,de borla,para quem o pedisse!
Da mesma maneira,como brincadeira e um piropo do Norte,os foliões batiam uns nos outros com duros talos de alho-poró.Tudo com amor e carinho.
Em princípio era proibido reagir com violência.
Podia-se,apenas, devolver o galanteio com outra porrada.
É claro que muitos não gostavam;daí grandes pancadarias.
Com o passar dos anos,um pouco de juízo entrou na cabeça desta malta.
O bom senso acabou prevalecendo.
Primeiro a farra da sardinha gratuita terminou, movida pelo elevado custo da iguaria.
E quanto ao porrete de alho-poró,
causador de prisões e hospitais,foi devidamente substituído por martelinhos de plástico - made in China - muito menos traumáticos e agressivos!
Isto no que diz respeito ao populacho.
O Estado,o Concelho e a televisão oficial se uniram - como em todos os anos - para transmitir uma parte dos festejos juninos,principalmente, uma queima de fogos.
Tudo a postos,liguei meu aparelho para assistir,ao vivo a programação.
O drama começou!
O narrador,fez a contagem regressiva para o início do espetáculo pirotécnico.
Quando chegou ao zero,nada aconteceu. Nem um só foguete.
Embaraçado,ele esperou alguns momentos e reiniciou a contagem.
Nada!!!
E foi assim por uns quarenta minutos.
O infeliz estava completamente perdido. Não sabia mais o que contar para seu público.
A confusão se estendeu para toda sua equipe.
Imaginem o desespero da direção. Uma comédia pastelão.
Finalmente,começaram a chegar explicações.
Uma das balsas quase naufragou.
O que complicou,sobremaneira a sequência dos fogos de artifício.
Os músicos e cantores não conseguiam decidir se começavam seu show separados dos demais.
Alguém acabou se machucando.
Os comerciais,entraram nas horas erradas.
Para completar a tragédia os protagonistas desandaram a brigar entre si!
É claro que os telespectadores,em sua maioria, não desligaram nem,muito menos,mudaram de canal.
Foi uma plateia superior ao esperado.
Finalmente, tudo acabou se encaixando para o alívio geral.
Qual a conclusão para os dois incidentes?
Neste atual Planeta Terra,nada funciona com perfeição.
Muita soberba,empáfia e esculhambação.
Fica a lição. Não confiem no sistema. Questionem sempre.
Eles não sabem o que fazem!!!
O Porto, dia 13 de agosto!
🦖😢👎🖕🏼🇵🇹🍀🧿🌹🙏
💐
Z
Texto enviado pela família, com revisão ortográfica e gramatical autorizada. Estilo e voz do autor preservados.
← Voltar à biblioteca