Crônicas · Crônica de lembranças
O tempo não volta jamais.
Por Dino Menasche
Escrito em julho de 2026 · dia não informado

Se pudesse voltar no tempo, que lembrança escolheria?
É muito difícil decidir.
Afinal,estou falando da vida de um cavalheiro que acabou de completar oitenta e nove anos.
Bem vividos!
Tenho,dentro de mim,a certeza de que cada momento,bom ou mau,valeu a pena.
O tique-taque não para,devorando as horas que me restam.
Então ,a faute de mieux,vamos em frente.
Puxo uma carta de meu baralho imaginário.
Ilha de Itacuruçá. Praia Grande.
Usando minha Lâmpada de Aladim - versão moderna e atualizada denominada celular -
consigo visualizar uma pequena casa,teto de sapé, a poucos metros da praia e do mar.
Coloco as lentes no zoom e,cautelosamente, me aproximo da varanda.
Ouço vozes conhecidas.
Foco na imagem. Dois meninos louros,meus filhos,discutem entre si.
Uma bonita mulher,Cecília,minha namorada,de bikini,balança na rede.
No fundo,aparece um sujeito barbudo,atlético,bronzeado,trazendo em cada mão um espeto
de carne para churrasquear.
É engraçado rever a si mesmo,cinquenta anos atrás.
A conversa não tem a menor importância.
Parecem em paz.
Sinto alguém passar, em minhas
costas,correndo pela areia. Arrasta uma perna.
Cumprimenta,formalmente,a turma da varanda e segue caminho.
Aproveito o ensejo, e o sigo,discretamente.
Chegamos à Praia Dourada.
Ele mergulha,naquelas águas que conheço bem.
Quantas vezes ali nadei.
Numa noite de ano novo,foi que descobri, o brilhar daquele pedaço de mar.
Ao movimento dos braços e pernas,areia,cheia de mica
-como soube mais tarde - subia à superfície, tingindo de dourado as ondulações.
Fui eu ,quem a batizou.
Ouvi vozes e risadas à minha retaguarda.
Vestidos de branco,em respeito à Irmanjá, chegou a turminha da varanda acompanhada pela família do Heitor, amigo de infância.
A algazarra era geral.
Imediatamente,notei minha falta.
Alguém explicou a ausência;
Fora buscar um esquecido champagne.
Meia-noite em ponto, fogos cruzaram o céu,anunciando o novo ano.
Vinham de uma ilhota vizinha.
Beijos,desejos,carinhos; o futuro nos aguardava.
Não consegui reter as lágrimas.
Só eu sabia,o que iria acontecer a cada um dos personagens.
Alguns,não estavam mais entre nós.
Foi então que percebi,que brincar com o tempo,não era brincadeira.
O prudente seria deixá-lo em paz.
Ataquei,prontamente,este covarde pensamento.
Seria uma falta de respeito, para com essa juventude,animada e esperançosa.
Resolvi continuar minha viagem ao passado. Só,mudando o cenário e alguns dos personagens.
Voltei ao baralho.
A carta tirada era do meu naipe favorito. Copas!
Concentrei-me, e lentamente,
novo cenário apareceu no écran.
Novamente,uma praia.
Completamente,diferente.
Desta vez,grande,repleta de gente.
Copacabana,Posto Dois e Meio.
Ondas enormes,vinham da arrebentação,morrer na areia.
Estava sozinho,no meio da multidão.
A julgar pela ansiedade,expressa nos movimentos,aguardava alguém.
De repente,levo uma bolada na cabeça.
Fora o susto,não tive maiores problemas.
Peguei a pelota,para devolver a seu dono,praguejando baixinho.
Para minha surpresa,o autor da façanha era,apenas,meu primo Benito,exímio jogador de Fresco Ball.
Para quem não sabe, este esporte,seguramente inventado nas praias cariocas,consiste,ao contrário de todos os outros, em manter a bolinha no ar,o máximo possível.
Não existe adversário e sim,parceiro. O que não impede de bater com força.
Meu primo veio até mim,
rindo e se desculpando.
No heart feelings.
Um leve toque no braço,muda minha atenção.
Era ela,a menina do Posto Quatro.
Nos havíamos conhecido na véspera numa festinha ,
na casa de uma amiga em comum,dançamos, conversamos,descobrimos muitas afinidades e, como bons
cariocas,marcamos um encontro na praia.
Nosso papo foi breve,seguido de um convite meu,para nadarmos até a lancha do banhista.
Naquela época, diante dos postos mais importantes, os salva-vidas, patrulhavam o mar,dois em cada embarcação,
para acudir os eventuais afogados.
Nadar até lá,era uma razoável proeza.
Com minha maquineta,em zoom total,acompanhei o casal até seu objetivo.
Tardaram um pouco a voltar,sãos e salvos.
O que não poderiam imaginar é,que daquele fugaz encontro,nasceria um namoro,noivado,casamento e dois filhos maravilhosos.
Com todo este esforço,calor infernal,fui obrigado a fazer uma pausa em minha pesquisa.
Na manhã seguinte,ao acordar, mordido pela curiosidade,puxei por mais uma carta.
Desta vez,um dois de paus.Agora ,o mergulho no passado fora profundo!
Um modesto apartamento.
Regulo minha câmera e na tela surge um menino,pelado, dentro de uma pequena banheira.
Bate as pernas,com energia,espalhando água pelo chão.
Está curtindo,adoidado.
Olhando com maior atenção,concluo que o guri era eu.
Teria no máximo dois anos.
As mãos que me ensaboavam eram as de minha mãe.
Abro o foco para vê-la inteira.
Nunca havia atinado para sua beleza.
O banho termina,e ela tenta retirar-me para envolver-me na toalha.
Reajo com estridência. Não aceito,de nenhuma maneira,esta mudança de programa.
Meus berros,poderiam assustar a vizinhança.
A duras penas,mamãe tenta consolar-me,usando todos os recursos disponíveis.
Nada fácil controlar um bacorinho com a energia daquele
filhote.
Finalmente,a sabedoria materna,resolveu a questão.
Uma mamadeira com café com leite, acalmou a fera.
Ia desligando a câmera,achando que o assunto estava encerrado, quando percebi que meu alter ego, já satisfeito,pulava com energia sobre a cômoda onde secara.
Nossa mãe,não conseguia controlá-lo,apenas segurando seu torso para que não caísse.
Ao mesmo tempo,olhava com insistência pela janela.
Desloquei a lente para o que espiava e,dei de cara,com um elefante,diante da lona de um circo,sendo escovado por seu tratador. Então entendi o fascínio que sempre tive pelo paquiderme.
Enquanto era vestido,percebi que o episódio se esfumaçava, e acabou desaparecendo.
Não desejando tornar-me viciado, decidi dar uma pausa,nesta fascinante,atividade.
Fui ganhar dinheiro e gozar os prazeres da vida.
Hoje,agora,estou voltando.
Seguro o baralho na mão e tiro mais uma carta.
Surprise! É o Coringa!!
Intrigado,vou correndo saber o que me oferece.
Mais uma vez aciono o
equipamento.
Agora, o aparelho parece estar desregulado.
Repito,passo a passo,o protocolo.
Imagens turvas surgem no écran.
Aumento a luminosidade.
Um corpo aparece,em decúbito dorsal,estirado no chão.
Ao seu lado,um outro. Encolhido como um feto.
Regulo as lentes. É o de uma figura feminina.
Não os conheço e o que teriam a ver comigo.
Vindo do escuro da noite,um vulto se aproxima andando tropegamente.
Parece estar drogado; completamente fora de si!
Se avizinha da mulher,se agacha e lhe sacode a cabeça,como se tentasse despertá-la.
Nesta hora,olha em direção da câmera.
Não acredito no que vejo.
O sujeito sou eu! Sujo,barbado, alucinado!
Dá um passo para o lado,olhos vidrados,e lentamente,
escorrega amparando -se na parede.
Um frio intenso desceu por minha coluna dorsal.
Como alguém pudera registrar este momento raro,confuso,assustador
que passei em minha adolescência.
Com que intenção?
Um surto provocado pelo uso desmedido de um coquetel de drogas,graças a Deus,debelado logo no início.
Assim mesmo,fiquei internado um bom tempo,num centro de reabilitação, o segredo mais bem guardado de minha vida.
Infelizmente,não parou por aí.
Apesar do auxílio de psicanalistas e psiquiatras,padeci durante dois anos de uma Crise de Pânico.
Pouco a pouco,fui melhorando até obliterá-la,espero eu, para nunca mais.
De qualquer forma,intuí que o sorteio do Coringa fora uma mensagem do meu Anjo da Guarda.
Um alerta para não continuar bisbilhotando,assuntos do passado.
Assim sendo,esta é a última vez que toco neste assunto.
Pelo menos,por enquanto.
Espero ter aprendido a lição.
Viver os dias que me restam,intensamente,até o apito final.
Assim,seja!!!
OPorto, julho 2026.
🦖🥰👍👏⚽️🧿🌹🍀😁🤸🏿♂️🙏
💐
Texto enviado pela família, com revisão ortográfica e gramatical autorizada. Estilo e voz do autor preservados.
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