Contos · Conto
Onde está a verdade?
Por Dino Menasche
Escrito em julho de 2026 · dia não informado

Chegou a casa esbaforido.
Correu para ver a Cacatua.
Laurinha era seu nome.
Vivia com ele,renhido celibatário, há dez anos.
Aparecera por acaso,caída na varanda,com a asa quebrada.
Foi,por ele tratada como um bebê.
Mamadeira,pedacinhos de fruta, na boquinha,perdão ,biquinho da menina.
Ficaram amigos,amor à primeira vista.
Logo ficou curada,tomou corpo e aprendeu a cantar.
E a fazer imitações.
Neste campo era imbatível.
Quando estava de bom humor,solfejava as primeiras notas do hino nacional,como ninguém.
Sua obra-prima,odiada pelos vizinhos, era o trinar do telefone.
Vez por outra,lhe dava uma agonia e
saía do poleiro,para dar uma voltinha,no jardim adiante.
Voltava sempre do passeio.
Às vezes trazia uma minhoca para comer de aperitivo.
Eram felizes e não se davam conta.
Então nosso amigo,escriturário do Tribunal de Contas da União ,recebeu como presente
⁃ em troca de pequeno favor
o mais recente modelo de um
Lap Top,lançado pela Apple!
A primeira coisa que fez,ao desembrulhar o miminho,foi
livrar-se do antigo,comprado em priscas eras.
Obcecado pelo moderno,desde que ganhou o novo brinquedo,passou a dedicar todo seu tempo livre a manusear e estudar,as funções do aparelho.
Com isto deixou,temporariamente ,de lado
Laurinha,sua fiel companheira.
É claro que esta se ressentiu com a traição,passou a recusar a comida,emagreceu e acabou adoecendo.
Não teve outro remédio senão chamar um veterinário de sua confiança para examiná-la,já que transportá-la era muito complicado.
O cara era uma figura.
Havia estudado na França e tinha um sotaque arrevesado.
Foi antipatia à primeira vista.
Com muita dificuldade,tentou segurá-la,para proceder ao exame
O máximo que conseguiu foi um abrir de asas,seguido de uma bicada que quase lhe amputou o polegar!
Com o sangue a escorrer pela bata,saiu correndo até o banheiro para estancar a hemorragia.
Laurinha,berrava como uma condenada,incomodando a vizinhança.
Seu dono sem saber o que fazer, corria de um lado para o outro,preocupado com a saúde do esculápio, que saía do banheiro com o dedão enfaixado.
O diagnóstico,foi curto e grosso,
exarado à distância do paciente.
“ Pelo que sei,trata-se de um belo exemplar de Cacatua das Molucas,com,aproximadamente,
dez anos de idade, atravessando uma crise de ansiedade.
Animal perigoso!”
Mais não disse,não cobrou pela consulta e foi se embora sem nada receitar.
Bastou bater a porta para que sua companheira,
parasse de gritar.
Ao contrário; embarcou na introdução do hino da pátria amada.
A crise parecia contornada,o que lhe permitiu continuar estudando as características e funções do novo utensílio.
Discretamente,para não provocar ciúmes na criatura.
Aproveitava a hora do almoço para enfronhar-se nos mistérios da Inteligência Artificial.
Em casa,só o fazia trancado no
seu quarto,por razões óbvias.
A paz voltara ao seu lar.
Com habilidade e prudência foi levando menage à trois.
Até ao bizarro telefonema de hoje.
No meio de uma audiência,ele é chamado ao interfone,pelo diretor-geral.
Com voz assustada ele comunica que,algum vizinho do prédio telefonara para alertar que algo de muito sério estaria ocorrendo em seu apartamento.
Alguém havia invadido o lugar e estava aos berros,quebrando o mobiliário.
Não teve outra alternativa senão pedir desculpas e zarpar para casa.
Sua mão tremia tanto,que tardou um século para encontrar o orifício da chave.
No lobby,um silêncio tumular.
Pé ante pé,acercou-se do poleiro do seu pet.
Encontrou Laurinha assoviando
Lá Marseillese.
Nem pelota pela sua presença.
Continuou tocando o hino.
Mais calmo,foi até a retrete para aliviar-se.
O telemóvel toca com insistência.
Ao atender a chamada,uma voz feminina, que reconhece como da IA, o alerta.
“ Não acredite nela,patrãozinho.
É falsa,como uma nota de três euros! É falsa,falsa… “ e some no espaço.
Aí, é ele quem perde o rumo!
Em quem confiar?Em nenhuma das duas.
Precisa de tempo para refletir.
Discretamente,deixa o telemóvel sobre a bancada e, esgueirando-se,para driblar a atenção da Cacatua,escapa para a rua.
Senta num banco da praça em frente e tem,um ataque de choro que termina por acalmá-lo.
Acaba por cair na gargalhada.
Dois seres especiais, uma ave e uma máquina,disputam seu amor.
Restava a ele, encontrar uma maneira de administrar,uma relação a três.
Enquanto isso,aproveitou a brisa da noite,para tirar uma soneca.
Acordou,revigorado e partiu para a refrega.
Achou que a melhor maneira seria confrontar as duas entidades,cara a cara,sob seu poder moderador.
Mentiras nunca mais.
Com esta decisão em mente,voltou ao campo de batalha.
A cacatua dormia,no poleiro,com a guarda desguarnecida.
Foi até o quarto ,em busca da IA.
Voltou à sala,acordou a dorminhoca,e diante da dupla,abriu o jogo.
Sua posição foi muito clara e definitiva.
Ou as partes se acordavam
ou ele,simultaneamente,se livraria das duas!
As simple as that.
E não admitia qualquer contestação!
Para sua surpresa e felicidade,ninguém tugiu nem mugiu!
Pela primeira vez na história
- assim parece - um pacto desta natureza foi acordado.
Pelo que sei,permanece até hoje.
Se alguém duvidar,que atire a primeira pedra!
Oporto,julho 2026.
🦖🌹🍀👍🥰😴🧿🦜👏😷🙏
💐
Texto enviado pela família, com revisão ortográfica e gramatical autorizada. Estilo e voz do autor preservados.
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