Dino MenascheCONTOS & MEMÓRIAS

Memórias · Memórias de amizade

Paulo Schwinger.

Por Dino Menasche
Escrito em agosto de 2026 · dia não informado

Quatro cadeiras e livros numa sala de aula de outros tempos.
Ilustração artística inspirada no texto de Dino Menasche.
Para ler com calma

Conheci Paulo no primeiro ano primário do colégio Anglo Americano.

Era um menino alto, entre louro e ruivo e,confesso,não me impressionou.

Não era ligado ao esporte e,muito menos,brigão!

Discreto,educado ,modesto.

Foi meu colega durante quatro anos,até quando saí da escola para estudar no Mello e Souza.

Três anos depois,retornei ao Anglo,desta vez em Botafogo.

Foi então que ficamos amigos.

Fazia parte da patota liderada pelo Domingos,intelectuais,artistas e,sobretudo, muito metidos a besta.

Como já vos contei uma vez,fiz de tudo para ingressar naquele grupo,o que consegui com engenho e arte.

Surgiram,então os três mosqueteiros, sendo eu,modestamente,D’Artagnan!

O personagem que caberia melhor para o companheiro,

seria o de Porthos.

“Um por todos,todos por um!”

Foi neste cenário em que os quatro mosqueteiros passaram os próximos anos,esgrimindo pela vida;amigos para sempre!

Juntos,estudaram,sonharam,

amaram,sofreram, tudo isto na,já falada,Boate do Santuário.

Chegamos,sãos e salvos,diante do grande desafio: Passar no vestibular!

Foi aí que tomaram rumos diferentes.

O de Domingos,engenharia.

Heitor,medicina.

Paulinho,administração de empresas.

E quem vos fala,direito.

Domingos e eu,passamos de primeira.

Os outros dois,tiveram que repetir a porra da prova.

Este incidente,em nada diminuiu, a amizade dos mosqueteiros.

Continuaram,lado a lado,em busca de novas conquistas.

Paulinho,protagonista desta história,ficou mal no pedaço.

Seus pais,húngaros,refugiados e

sobreviventes do nazismo, tinham uma vida modesta de pequenos empresários.

Foi compelido a trabalhar para ganhar seu sustento.

Por extraordinária coincidência

⁃ naquela época não conhecíamos a teoria da sincronicidade -

seu futuro patrão era amigo de meus pais.

Um empresário corajoso,recém-separado da mulher,numa situação rocambolesca.

Tinha uma única filha,que no futuro,participaria,e muito,da vida do quarteto.

Seguindo com as aventuras do nosso herói.

Não me lembro como,conheceu uma garota de nome Stella,judia como ele e começaram a namorar.

O amor estava no ar.

Os demais companheiros,também,a sua maneira, haviam encontrado suas parceiras.

Então ,a primeira traição.

Um dos mosqueteiros,não devo denunciá-lo, se engraçou com a menina,criando uma crise no grupo.

Resultado. Choros,arrependimentos,separações.

Paulinho ficou ao Deus dará.

Para superar a dor de corno,arranjou um emprego em Ceilândia,cidade anexa à Brasília.

A futura capital do Brasil,vivia um

momento de ebulição,com gigantescas obras para todo o lado.

Os salários dos candangos eram superiores ao resto do país.

Isto porém foi exaurindo a saúde do operário que,acabou pedindo arrego, e meses depois retornou ao Rio.

Neste período,as coisas mudaram rapidamente.

Uma nova personagem ingressou no pedaço.

Seu nome era Flávia Maria, uma mulher extraordinária,bonita,inteligente,

culta e de boa família.

Não tardou muito e começaram a namorar.

Neste meio tempo,eu casara,e havia conseguido uma bolsa de estudos para Paris.

Como bom amigo,que modéstia à parte,sempre fui,

emprestei nosso apartamento para o casal até nosso retorno ao Brasil.O que ocorreu seis meses depois.

Neste meio tempo,tudo mudou,radicalmente,na vida da dupla.

Casaram, e o noivo ingressara numa aventura financeira surpreendente e espetacular.

Convidado por seu sogro,um professor aposentado, fora nomeado vice-presidente de uma empresa,cujo capital pertencia a um investidor norte-americano.

Sua finalidade precípua era aplicar dinheiros de terceiros em empresas locais ,

com rentabilidade acima do mercado!

As comissões eram sensacionais.

Os dirigentes,nomeadamente,sogro e genro,tinham retiradas gigantescas,ou seja,o melhor negócio do mundo!

Como jovem advogado,além do mais,vindo da Europa,achei que esmola demais pobre desconfia.

Tentei advertir o amigo,que mordido pela mosca azul,não me deu a menor bola.

A festa durou mais alguns meses.

Um belo dia,os noticiários televisivos,com pompa e circunstância, lançaram uma bomba no ar.

A empresa dos meus amigos estava sendo acusada de fraude,estelionato num golpe chamado Pirâmide Financeira.

E mais. As autoridades competentes já haviam iniciado busca e apreensão no domicílio dos suspeitos seguida de ação do Ministério Público.

Diante da gravidade da acusação

fui,imediatamente para a residência do professor, presidente.

Encontrei um clima de velório .

O apartamento

estava entupido de policiais e repórteres.

Os donos da casa,apalermados,não sabiam o que fazer.

Graças aos deuses,pelo adiantado da hora,não ocorreram prisões.

Não sendo criminalista,minha atuação era restrita a apoio emocional.

O assunto tornou-se mais grave quando me exibiram uma notícia publicada na revista Time, acusando o acionista americano de liderar uma quadrilha internacional especialista neste tipo de golpe.

E de lambuja,o nome dos cúmplices brasileiros.

Foi um período complicado onde o sobrenome da família exerceu um papel importante.

A tese dos advogados de defesa era de que os brasileiros não passavam de inocentes úteis,vítimas dos golpistas como os demais.

Inclusive era verdade e ajudou,sobremaneira,na esfera criminal.

Mas no cível,era diferente.

Os credores,como marimbondos,tentavam de todas as formas ressarcir-se do prejuízo.

Como meu amigo morava,ainda,na casa dos sogros não sobrou para ele.

Mas o desfile de oficiais de justiça e de rábulas prosseguiu por algum tempo.

Participei,pessoalmente,de todo o procedimento.

Foi duro negociar com essa cambada.

Tive a sorte de conhecer alguns dos advogados ,o que permitiu diminuir o impacto.

Paulo saiu do episódio,arrasado.

Lentamente foi se recuperando,conseguiu um emprego de gerente nas Listas Amarelas e ainda recebeu como presente dos pais,um pequeno apartamento em Copacabana.

Até que, muitos meses depois, foi intimado por um credor de São Paulo, um socialite,que tentava penhorar o apartamento conjugal.

Lá fui eu para São Paulo,obviamente,a minhas custas.

Consegui a duras penas demover o paulistano de sua intenção.

Good for me!

Mas,no meio disto outro tsunami se aproximava do amigo.

Seu casamento não andava nada bem.

Flávia Maria roía a corda.

Outra vez,traição perpetrada

pelo mesmo mosqueteiro.

Sem entrar em detalhes,separação e cada qual seguiu seu caminho.

Tentou refugiar-se junto a velhos amigos do lado familiar,mas não funcionou.

Acabou encontrando outra mulher, uma psicanalista com quem viveu um par de anos.

Não sei se foi feliz. O que é certo é que separaram e no meio deste tumulto,conseguiu,ainda,fazer um monte de besteiras,tornando-se inadimplente.

Vendeu o carro,para pagar uma derradeiras dívidas.

Neste período nos encontramos em várias ocasiões .

Nunca ouvi este homem falar mal de alguém.

Sempre discreto,respeitoso delicado.

Soube,en passant, que esteve com Flávia por diversas vezes e tentou ajudá-la como podia.

O mais interessante que me contou foi seu trabalho.

Já tinha condições de aposentar-se. Mais ainda,seus patrões sugeriram que parasse de trabalhar para descansar.

Recusou. Informou que havia alguns fios soltos na empresa e que ele precisava corrigir.

Mesmo não remunerado.

Para tal ,todos os dias embarcava num ônibus e ia trabalhar. Não admitia deixar algo pela metade.

Na última vez que nos falamos foi no dia de seu aniversário.

Telefonei de Portugal,onde estou morando,para dar-lhe os parabéns.

Quando atendeu,soltei uma piada. De idoso para idoso.

“ Olá Paulinho. Você ainda está vivo?”

Nosso papo foi,como sempre,cordial e animado.

Convidei-o para vir visitar-me.

Falei do mosqueteiro que se foi

⁃ nos encontramos no velório dançante -

do outro que sobrevivia a duras penas numa casa de repouso e rememorei aspectos engraçados de nossa juventude.

O mais divertido,certamente,foi num jogo de basquete,onde ele,o mais alto da equipe,não percebeu que havíamos mudado de lado e fez,pela primeira vez na história,uma cesta contra.

Não chegou a passar uma semana quando recebi um telefonema de uma mulher desconhecida.

Perguntou meu nome o que me deixou ressabiado.

Poderia ser um trote ou,pior,a tentativa de um golpe.

Não me deu tempo de mais nada.

Anunciou seu nome e informou que jantáramos juntos com Paulinho há anos atrás.

Depois,soltou o petardo,curto e grosso.

“ Seu amigo morreu ontem.Vai ser cremado amanhã.”

Fiquei em estado de choque.

Não esperava a notícia.

Ela prosseguiu,contando detalhes.

“ Ele chegava do emprego já à noitinha. Não havia ninguém na portaria.

Parece que tropeçou,caiu ainda na rua e foi se arrastando até o elevador.

A duras penas entrou em casa e ligou para alguém da família -sua cunhada disse ela,maldosamente .

Pelo que sei,passou a noite com dores atrozes e ninguém apareceu.

Deixou-me um recado no celular,pedindo socorro mas só o ouvi na manhã seguinte.

Era tarde demais.

Havia fraturado o fêmur e não resistiu.”

E terminou,abruptamente.

Não tive sequer o tempo para confirmar a veracidade do informado, quando o celular tocou novamente.

Era sua cunhada confirmando o ocorrido e perguntando sobre como fazer o funeral.

Se eu,como amigo dele,sabia alguma coisa de sua religião.

Não fazia a menor ideia.

Nunca havíamos falado do assunto. Apenas que era judeu.

Assim acabou Paulo Schwinger.

Não soube mais nada sobre enterro,cremação,etc.

Agora,passados os anos,ao escrever estas linhas me lembrei de uma música que fizemos para brincar com ele!

A letra era assim.

Paulinho sem pau é linho.

Paulinho sem linho é pau,

Tirando o pau de Paulinho,

ai,ai ai!

Paulinho fica sem pau.

O Porto,agosto 2026.

🦖🥰🇧🇷🌹🍀🧿👍👏🙏

💐💐

Texto enviado pela família, com revisão ortográfica e gramatical autorizada. Estilo e voz do autor preservados.

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