Dino MenascheCONTOS & MEMÓRIAS

Crônicas · Crônica

Terá a fonte secado?

Por Dino Menasche
Escrito em 12 de outubro de 2026

Um urso num jardim de sonho junto a cartas ilustradas com animais.
Ilustração artística inspirada no texto de Dino Menasche.
Para ler com calma

Nesta noite tive um sonho engraçado.

Estava num sítio que nunca tive conversando com meu amigo Heitor.

Do bosque vizinho aparece,correndo em nossa direção um urso negro.

Minha primeira reação foi sair correndo.

Logo me veio à memória um documentário que acabara de ver na televisão aberta.

Nele o narrador instruía que,em casos similares, o correto era ficar parado,imitando uma estátua.

Devo esclarecer que meus sonhos - como acho ser os de todo mundo - não primam pela lógica,muito menos pela coerência.

Meu amigo,ensaiou uma corrida,mas a meu pedido, abandonou a ideia, e ficou imóvel imitando uma estátua.

O animal,um filhote já grandinho,

pisou no freio e veio deslizando até nosso lado.

O que era ameaça transformou-se em ternura e aconchego.

Como um gigantesco bichano,começou a esfregar-se em nossas pernas.

Ouvi,até um ronronar.

Não resistimos. Passamos a brincar com ele, fazendo até cafuné.

Confirmando o acima dito,as imagens foram se embaralhando até desaparecerem por completo.

Quando acordei,a primeira coisa que lembrei foi da imagem do ursinho brincalhão.

Caí na asneira de contar,rapidamente,alguns detalhes deste devaneio para meu fisioterapeuta que lutava bravamente contra um torcicolo.

Para tentar reduzir a dor,não sei por que cargas d’água lembrei-me do jogo do bicho.

Quando lhe falei a respeito,ele sendo português e estando no Brasil há pouco tempo,confessou que jamais ouvira falar deste assunto. O que me levou a tentar

explicar-lhe.

Aí deparei-me com um surpreendente obstáculo.

Eu mesmo sabia pouco sobre o assunto.

Dei-lhe uma sumária lição e,eis-me aqui tentando fazer um doutorado sobre o jogo do bicho e minha vivência com esta contravenção penal.

Surgiu em 1892,em Vila Isabel,bairro do Rio de Janeiro.

Seu criador foi um tipo com o apelido de Barão de Drummond.

Havia recém inaugurado um Jardim Zoológico no bairro e para incentivar os futuros visitantes,pois os ingressos eram pagos,teve a ideia de criar uma tômbola,cujo prêmio seria a entrada gratuita.

O sorteio levaria em conta os dois últimos números do ingresso.

Para ligar o sorteio ao Zoo,

resolveu vincular os números ao nome dos animais ali hospedados.

Para dar um exemplo, os primeiros quatro algarismos,01 - 04 corresponderiam ao Avestruz.

O seguinte quarteto,05-08 à Águia e assim por diante.

O que começou com um inocente sorteio,transformou-se,ao longo dos anos,num poderoso conglomerado como se verá a seguir.

Comerciantes,perceberam que poderiam ampliar a brincadeira,sofisticando o sistema para atrair a clientela.

Criaram cartões com a imagem dos animais e a correspondente numeração de forma a facilitar a venda do produto.

Com o auxílio de um ou vários matemáticos,baseados nos casinos,bingos,loterias, Jockey Clubes,jogos de carta a dinheiro etc. foram ampliando as combinações e consequentes retornos.

Vários fatores contribuíram para a explosão que se seguiu.

Sem priorizar nem falar de datas.

A distribuição de pontos de venda por toda a cidade.

O pequeno valor permitido para as apostas.

A falta de custos de impressão.

O drible no fisco,nos dois lados.

O mecenato dos chefões ,vide as Escolas de samba!

A livre escolha dos números e combinações.

A dois sorteios por dia.

A confiança nos bicheiros.

E a possibilidade de utilizar sonhos,coincidências,mensagens do além, etc.

Outro fator fundamental.

Dona Santinha,a esposa do Presidente Eurico Gaspar Dutra.

Carola inveterada,convenceu o marido a proibir o jogo no Brasil.

Mandou pelos ares uma atividade que funcionava muito bem,ajudando o turismo,dando empregos,estimulando as artes,e gerando uma batelada de receitas tributárias.

Foi a sopa no mel para a bandidagem,que ocupou,imediatamente, o vácuo provocado.

De uma hora para outra,o volume dos negócios decuplicou,espraiou-se pelo país,

atraiu Máfias internacionais e o pior, abriu as portas para a droga!

Atrelado,veio a corrupção,evasão e ingresso clandestino de divisas,contrabando,lavagem de dinheiro,guerra de quadrilhas, e a proliferação do crime organizado, que neste exato momento tem influência nos três poderes da república e ocupa e explora parte do território nacional.

Esta corja contribui,decisivamente, para o aumento indiscriminado da violência que sufoca o país.

Pelo meu lado,tive algumas experiências neste ramo.

A mais relevante foram meus encontros com Castor de Andrade já narrados no meu livro.

Um personagem extraordinário de quem tive,pessoalmente,as melhores impressões.

Difícil imaginar sua reputação diabólica.

Eu mesmo,já ganhei uma vez um pleno.

Não foi muito. Deu para comprar um par de sapatos de couro alemão.

Na esquina do meu escritório fazia ponto um senhor do ramo. Enquanto esperava minha boleia conjugal - sempre atrasada - assisti muitas vezes sua atuação.

Seus clientes,na maioria, eram pessoas humildes.

Sentava numa cadeira na calçada e apontava o jogo num caixote de maçãs pousado na rua.

De vez em quando passava um olheiro,para lhe dar segurança e recolher a féria do dia e municiá-lo para pagar os vencedores. Seus potenciais inimigos eram

esbirros de concorrentes, assaltantes e o rapa da polícia. Certa vez assisti ao vivo uma blitz do rapa.

Os passantes,alertaram o bicheiro aos gritos.

Numa velocidade ,impressionante,fez desaparecer cadeira e até o caixote.

Alguns segundos antes da chegada dos meganhas,engoliu meia dúzia de papelotes comprometedores.

Espero que estive pessimista sem motivo.

Minha fonte continua derramando abundantes novidades.

Obrigado pela atenção.

Até breve!

Oporto, 12 de outubro de 2026.

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🙏

Texto enviado pela família, com revisão ortográfica e gramatical autorizada. Estilo e voz do autor preservados.

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