Contos · Suspense
Um crime quase perfeito.
Por Dino Menasche
Escrito em julho de 2026 · dia não informado

Esta história me foi contada,há anos atrás,por uma pessoa que não devo identificar.
Estávamos,ambos,no exterior,eu de passagem na Suíça.
Nunca mais a vi e espero jamais voltar a vê-la.
“Corria o ano de 1999.
Estávamos no início de dezembro,às vésperas da mudança de ano,de século e de milênio.
Talvez as pessoas comuns achassem esta passagem de tempo normal.
Não era bem meu caso.
Por diversos motivos.
Para começar,pelo lado exotérico.
Os estudiosos do Ocidente e do Oriente, previam grandes catástrofes.
Lembrei -me também,do ocorrido
na transição,logo antes do ano mil.
Milhares de suicídios,de pessoas
temerosas do fim do mundo.
Neste clima,fui convocado por um colega,para participar de uma reunião,onde o cliente era do Brasil.
Como só eu falava português,reservaram uma sala exclusiva para a entrevista preliminar.
Daqui para frente,esta narrativa será feita com minhas próprias palavras.
Impossível,passado tanto tempo,reproduzir ipsis litteris, o que me foi dito!
Foi assim que conheci Fátima,
⁃ nome fictício.
Quando ela se virou para cumprimentar-me,vi à
minha frente,a mulher mais linda que encontrei em toda minha vida.
Ela sabia de seu poder.
Levantou-se,estendeu-me a mão,como uma rainha, se dirige a um vassalo.
E,languidamente, contou o motivo de nossa reunião.
Em resumo; Viera de uma família humilde,do interior do Amazonas.
Nascera no fundo de uma canoa e passara a infância nadando ao lado dos jacarés .
Fascinado,não conseguia tirar os olhos do decote a minha frente.
O que me contou,a seguir era a
mesma história de
outras tantas meninas, do vasto Brasil.
Mal completou o primário.
Uma tia caridosa,a levou para São Paulo,onde fez um curso de corte e costura.
Logo percebeu,pelo olhar lascivo dos homens,que era bonita e desejada.
Seu tio,postiço,estava entre os mais animados.
O resto, o esperado
Assédio sexual, consumado em família,colégio interno de freiras,onde aprendeu francês,etiqueta e a arte de mentir, dissimular os sentimentos e agradar os homens.
De lá,para garota de programa,foi um passo.
Confesso que já não ouvia mais nada.
Meu pensamento e desejo era de
abraçá-la,colocá-la no colo,protegê-la e …
Caí em mim. Me comportava como todos os outros.
No fundo queria possuí-la.
O final desta história era o esperado.
Um cliente mais idoso,bilionário e solitário fez uma oferta,irrecusável, e comprou seu passe.
Com isso,mudou de nome, e ingressou pela porta da frente ,na sociedade paulistana.
Sua vida dera uma grande cambalhota.
Seu patrono,tinha um título de nobreza - Marquês de Luciferi - de ilustre família calabresa,era
Mestre Maçom e conselheiro papal.
Diziam as línguas invejosas,que exercia influência até na presidência da república.
Levou -a para morar num castelo,recém restaurado.
Passaram a primeira temporada na Europa,usufruindo da ,residência de verão no Lago de Como.
Mordomia completa;jatinho,veleiro. Verba ilimitada.
No início,era tratada como rainha.
O Marquês pouco a incomodava.
Preferia exibi-la do que possuí-la.
Fátima aceitava esta nova condição com serenidade e resignação.
Fazia sua parte no acordo tácito,ele como provedor e ela
beneficiária.
Até que,sutilmente,as coisas começaram a mudar.
Ele se revelou impaciente,autoritário, até grosseiro.
Nas poucas vezes que partilhavam a cama, seu comportamento,alterou-se por completo.
Um lado sádico,violento e perverso foi aparecendo,sem limite ou controle.
Parecia outra pessoa,possuída pelo demônio.
A mudança fora tão radical,inesperada e injustificada,que a pegou de surpresa.
Se acostumara a ser forte,poderosa e calculista.
Sabia o esforço que fizera para chegar até ali, e não estava disposta a recuar.
De uma coisa tinha a certeza:
Não sairia da relação de mãos abanando!
Nestas alturas, a narrativa passou a incomodar-me.
Aquela mulher deslumbrante,delicada,frágil,enternecedora,por quem me apaixonara,loucamente, se transmutara em outra pessoa.
Assim mesmo,continuava a
amá-la e,se preciso,protegê-la,
até de si mesma.
Ela prosseguiu a narrativa,os olhos vidrados,num transe sofrido.
Daí para a frente,a situação degringolou a passos rápidos.
Ele assumiu ,completamente,o monstro que morava em seu interior.
As ameaças,se transformaram em agressões físicas.
Estava tão cheio de ódio, que me atacava,até diante dos empregados.
Para evitar maiores confrontos,não saía mais do quarto. Nem para as refeições.
Temia ser violentada pela besta-fera.
Pensei em dar parte na polícia,mas, logo percebi que me daria mal.
O cara era muito poderoso.
A única solução que me ocorreu,foi a de bater em retirada,suportar,sem à violência e ,no momento oportuno ,mandá-lo para o outro mundo! Acabar com o canalha!
Estremeci,aguardando o pior.
Ela prosseguiu,agora mais tranquila.
Então caí em mim. Seria uma estupidez partir para a execução,de peito aberto,correndo grande risco de uma condenação por homicídio.
Mesmo alegando legítima defesa.
Estaria dando um tiro no próprio pé !
A morte teria que ser por causas naturais.
Isto obrigaria ao supremo sacrifício de empurrar com a barriga ,a solução do problema.
Passei noites pensando,sobre a melhor maneira de agir.
Dentro da sua truculência,a saúde do brutamontes não andava nada bem.
Comia e bebia como um animal. Estava muito acima do peso e controlava a saúde através de pastilhas receitadas por um médico homeopata,tão maluco quanto ele.
Mal ou bem,ele ia se safando.
Então,encontrei uma saída.
Neste momento,entrou na sala meu colega suíço e,sem pedir licença,interrompe a consulta.
“Desculpem a intromissão!
Mas o adiantado da hora assim o exige. Sugiro adiar a consulta para amanhã de manhã.”
Diante de minha educada negativa, se dirige à Fátima e,descaradamente,a convida para jantar.
Achei tudo isso, um grande desrespeito à minha pessoa, mas nada podia fazer.
Tomei um táxi e fui dormir no hotel.
Isto é; tentei dormir.
A conversa da tarde,continuava ruminando na minha cabeça,como um confuso caleidoscópio.
O encantamento,por aquela mulher,persistia.
Estaria contando a verdade?
Por que confiaria em mim?
Na manhã seguinte,joguei as dúvidas para o alto e,pontualmente,voltei ao escritório para ouvir o resto da história.
Ela já lá estava à minha espera.
Passei batido pelo suíço e ingressei na sala.
Mais linda do que na véspera,abraçou - me e prosseguiu com a narrativa.
Onde foi que parei?
Antes que respondesse,ela prosseguiu.
Ah,sim! Não poderia deixar vestígios. Teria que,de alguma maneira,trocar as pastilhas por placebos.
Assim,numa eventual autópsia,nada de anormal seria descoberto pelos legistas!
Suspirou fundo,descruzou as pernas e continuou.
Precisava,porém,
de um cúmplice.
Alguém,minimamente,competente para produzir as inocentes
pílulas.
Da troca,me encarrego eu!
Comecei a suar na testa.Até onde ela pretendia chegar com esta loucura?
O que estaria esperando de mim?
Infelizmente,pensei com meus botões,não era hora de saltar do trem.
Tinha que dar corda na pipa.
A resposta era evidente;alguém ligado à indústria farmacêutica!
Ou,um laboratório clandestino ligado à produção da droga.
Na verdade,uma tarefa simples.
Com um pouco de grana e contatos com os empregados,consegui uma batelada de pastilhas.
Restava,apenas,fazer a troca.
Por via das dúvidas,achei por bem,fazer uma revisão completa do meu plano!
É aí que entra o Doutor.
Esqueci-me de um assunto fundamental.
Como receber uma,justa,indenização por tudo o que dei,e me foi tomado,pelo
mequetrefe!
Possivelmente,também na Suíça,onde ele arrotava ter contas!
O que posso e devo fazer?
A pergunta me pegara de surpresa.
Por diversos motivos.
Primeiro,por não ter a menor ideia,de como proceder.
Segundo,por não ser minha especialidade,investimentos no exterior.
Terceiro,por jamais consentir em cooperar com crimes de lavagem de dinheiro, agravados por remessas ilícitas.
Ainda,por não ter coragem de participar,como cúmplice,de um homicídio.
E finalmente,temer a vingança dos asseclas do indigitado.
Nem mesmo a beleza e o carisma da mulher à minha frente,por quem continuava apaixonado,justificariam minha participação em tais crimes.
Atordoado,entrei em parafuso.
Pensamentos diversos e antagônicos,invadiram-me a cabeça.
Desde,engabelá-la,aceitar o desafio,convidá-la para jantar e, depois uma noite de amor no meu hotel.
Ou,fingir aquiescer ao múnus e contribuir para a execução de alguns dos delitos.
Ou,então, tentar dissuadi-la de praticar,um ou todos os pecados.
E,finalmente,o mais prosaico.
Fugir,covardemente,da cidade
abandonando a cliente a sua própria sorte.
Até o último minuto,hesitei,escapando desta roleta russa.
Aí, beijei-a na boca e saí a correr
do escritório,sem olhar para trás.
Nunca cheguei a saber o que aconteceu com a pretensa vítima.
Nem,muito menos,com a bela
Fátima.
Jamais cheguei a ir ao Brasil!
Oporto,julho 2026.
🦖😪🇧🇷🌹🍀👨🎓🕵️♀️🇨🇭🙏
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Texto enviado pela família, com revisão ortográfica e gramatical autorizada. Estilo e voz do autor preservados.
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