Dino MenascheCONTOS & MEMÓRIAS

Memórias · Crônica

Você ainda se lembra?

Por Dino Menasche
Escrito em 14 de outubro de 2026

Copacabana de outros tempos, ilustrada em aquarela.
Ilustração artística inspirada no texto de Dino Menasche.
Para ler com calma

Não sei quantos anos tens,prezado leitor.

Nem onde nasceste,nem onde estás vivendo hoje.

Qualquer que seja a resposta, peço vênia para a crônica que abaixo vou narrar.

Sou do Rio de Janeiro,carioca da gema,nascido em Copacabana no ano de 1937.

Fui advogado e sou,para sempre tricolor de coração.

Neste momento,vivo em Portugal,mas não consigo esquecer,um minuto sequer, tudo que lá vivi.

Por isto esta homenagem ao passado!

Que saudades eu tenho do tempo que não volta mais.

De quando podia andar tranquilo,pela calçada da orla sem temer ser assaltado.

Do bonde e do modesto taioba,que em seus trilhos de ferro,nos conduziam pela cidade.

Do ônibus cinzento, apelidado Camões,por motivos que até hoje não descobri.

Do lotação,invenção carioca - eu acho -, camioneta com vinte lugares,que corria loucamente e parava em qualquer lugar à vontade do passageiro.

Do refresco de coco do Simpatia,imbatível,que matava nossa sede.

Da Ducal e seus ternos mal-ajambrados.

Da Príncipe ,que veste hoje o homem de amanhã.

Das tirinhas do O Globo, que acompanhava fielmente ,

com preferência por Brucutú,Tereré,

e Marocas, e o mágico Mandrake.

Vez por outra o Gibi,e no fim do ano,o Almanaque do Globo Juvenil.

Das coxas da Professora de Francês, Dona Lys - por nós apelidada de Lysboa - que adivinhávamos,quando cruzava as pernas e jogávamos o lápis no chão,para ver melhor.

Da Madalena,Sonia,Catarina,Beatriz,

Adalgisa,Andreia,Claudinha,Vanisa,Dorinha,Marimar,Vera Lúcia,entre outras,por quem fui perdidamente,apaixonado.

Dos caras que me chatearam,provocaram,deram e levaram porrada.

Do primeiro cachorro-quente,acompanhado de Guará,

-Guará,Guará,Guará! Melhor refrescante não há!! - comido nas Lojas Americanas.

Do meu telescópio,presente de um amigo do papai, com o qual passei,anos a fio,procurando,sem sucesso,uma mulher nua nos apartamentos em frente.

Do liquidificador,maravilha trazida da América pelo tio Alberto, que me apresentou o Milk Shake

Dos meus queridos amigos de infância, que tiveram o mau gosto de bater a bota.

Os discos de cera lá de casa,onde ouvi Carlo Buti cantar

Il sole mio.

Do cheiro de linguiça frita,que me introduziu ao pecado da gula.

Dos inesquecíveis,inimitáveis,Boyos,

Borrequitas,Pastelicos,Ojaldres,

Aboudajos,Salados,Palamidas,

Mustachudos que enlouqueceriam Pantagruel.

Das matinês do Cineac Trianon,onde o filme começa quando você chega!!

Da linha de passe na praia,onde jogava no gol - lugar para os pernas de pau - e uma vez bati bola com Pinheiro,zagueiro do Fluminense e reserva da seleção brasileira.

E da piscina do Copa,onde sozinho aprendi a nadar.

Das partidas de xadrez contra meus vizinhos do último andar,

primos distantes, medalha de ouro do colégio, que,quase sempre perdiam.

Da minha bateria,comprada de segunda mão,da família Castro Neves,que me revelou,para minha tristeza,não levar jeito para o ofício.

Da descoberta do jazz, da bossa nova que recém nascia, das canções de amor e dos boleros sensuais.

Das musas das revistas,das cantoras do samba-canção, das novelas da Rádio Nacional,obrigatórias e lacrimejantes.

Dos programas de calouros do Ari Barroso e do Cézar de Alencar e do humor desenfreado das Piadas do Manduca e da PRK30.

E o que,de forma alguma poderia perder; o seriado do Homem Pássaro,diariamente - menos no fim de semana - depois da escola às 17h30.

Deixei para o último lugar,para não enfastiar o leitor,o capítulo da descoberta do pecado,da contravenção, do aprendizado do proibido,do risco e da despedida da adolescência.

Foi quando percebi,que além do Bar Mitzva’,quando ingressaria na comunidade judaica,a alegria indizível de matar aula,vender os livros escolares para poder jogar sinuca, futebol no gramado da pracinha,falar palavrão,provar e detestar um cigarro,tomar os primeiros goles da melhor caninha do mundo, Recordações de Quarenta,ingrediente obrigatório do Samba em Berlim.

( cachaça com guaraná, de preferência Cascata!)

E talvez,o mais importante de tudo. A descoberta do pinto, vulgo piroca,companheiro inseparável,irmão camarada, chave para um universo de prazer infinito,que tanta falta sempre me faz.

Como prêmio de consolação,recebi do meu anjo da guarda uma companheira dedicada,amorosa,carinhosa,amiga para todas as horas ;filhos preciosos ,meu presente do destino.Netos e bisnetos queridos!

É isto aí, meninos.

Não tenho o direito de me queixar.

Vivi,intensamente,o tempo que me foi ofertado.

Cometi erros,poucos na verdade,

pois sou humano.

Hoje,na minha idade,acho que aprendi a lição.

Tornei-me uma pessoa melhor .

Encaro,com altivez e confiança, o que a vida me reserva.

Não quero,não devo,não posso esquecer o que fiz.

Sobretudo amei. Amei demais!

E,I did it my way.

OPorto,14 de outubro de 2026.

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Texto enviado pela família, com revisão ortográfica e gramatical autorizada. Estilo e voz do autor preservados.

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